Uma cidade às margens do rio Amazonas, no Pará, é cenário do mais ambicioso projeto da Alcoa, A maior fabricante de alumínio do mundo. Ali, a empresa pretende transformar uma mina de bauxita em caso exemplar de exploração responsável. Seu desafio: gerir o impacto do projeto na vida de milhares de moradores, para quem a Alcoa sequer deveria estar ali.
por Aline Ribeiro
Leia nesta página um trecho da reportagem de Época NEGÓCIOS. O texto integral pode ser lido na edição de janeiro de 2009.
Era junho de 2006 quando Henry Schacht, Judith Gueron e Kathryn Fuller, membros do conselho de administração da Alcoa – maior produtora de alumínio do mundo, com vendas de US$ 30,7 bilhões em 2007 –, embarcaram numa longa viagem. Acompanhados de 12 executivos da companhia, trocaram o conforto de Nova York pelo calor úmido do interior da Amazônia. Depois de escalas em São Paulo e Santarém, chegaram de helicóptero a Juruti, no oeste do Pará, e seguiram de barco pelo rio Amazonas até a vila de Juruti Velho, uma comunidade encravada no meio da floresta, onde boa parte da população torcia o nariz para a Alcoa. Meses antes, a companhia recebera da Secretaria de Estado de Meio Ambiente a licença para instalar na região um empreendimento avaliado em R$ 3,5 bilhões para extração e beneficiamento de bauxita, a matéria-prima do alumínio. Os moradores de Juruti Velho protestavam contra a presença da companhia. Temiam que a chegada da multinacional ameaçasse seu modo de vida tradicional, baseado na pesca, na caça e na coleta de castanha.
Um galpão sem ar-condicionado e com telhado de palha, na praça principal do vilarejo, serviu de palco para as discussões entre o alto escalão da Alcoa e cerca de 30 moradores. Intérpretes contratados pela empresa traduziam em tempo real o que uns e outros falavam. Diferentemente do habitual, os executivos não comandaram a reunião – eles mais ouviam do que falavam. Os ribeirinhos, por sua vez, questionavam os danos ambientais da obra e a geração de empregos. "Aquela reunião permitiu que todos presenciassem ao vivo e em cores as dificuldades que iríamos enfrentar", afirma Franklin Feder, presidente da Alcoa para a América Latina e CEO da subsidiária brasileira. O tempo mostrou que ele estava certo. Em julho de 2008, Feder voltou a Juruti acompanhado de Alain Belda, presidente do conselho de administração, e Klaus Kleinfeld, presidente mundial da Alcoa, para entender o que mudara desde a primeira conversa com a empresa. A reunião não aconteceu. Motivo: os executivos chegaram com duas horas de atraso e, mesmo depois de se retratarem, os moradores não cederam. "Pedi desculpas publicamente três vezes. Mesmo assim, o líder da comunidade levantou e disse: 'Pessoal, está encerrada esta reunião'", diz Feder. "Nossa intenção não era, de maneira alguma, desrespeitar as pessoas que estavam lá."
A comunidade de Juruti não escolheu receber a Alcoa. Ao contrário, foi escolhida. O município de 125 anos, com 38 mil habitantes, está acomodado sobre uma jazida de 700 milhões de toneladas métricas de bauxita. A exploração dessa riqueza é crítica para o futuro da companhia. A Alcoa extrai anualmente 31,5 milhões de toneladas de bauxita. A maior mina sob sua administração está na Austrália e tem um potencial de 2 bilhões de toneladas. Quando entrar em operação, no início deste ano, a mina de Juruti será a terceira do ranking. Fará parte de um complexo que contemplará um porto fluvial, mais de 100 quilômetros de novas rodovias e ferrovias e duas pequenas termoelétricas sob responsabilidade da Petrobras.
Este seria um projeto de engenharia complexo em qualquer lugar do mundo. Na Amazônia, uma área extremamente sensível do ponto de vista ambiental e social, ganha contornos ainda mais delicados. "A última vez que fizemos uma obra assim no Brasil foi há 40 anos, em Poços de Caldas, Minas Gerais", diz Feder. "Naquela época não se falava em sustentabilidade. Agora a sociedade está muito mais alerta. Fazer isso hoje numa região como a Amazônia exige cuidado redobrado." Feder acredita ser possível transformar Juruti num modelo de exploração responsável. "Nossa intenção é fazer deste o projeto de mineração do século, como nunca se fez antes."
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